Seminário põe em diálogo diferentes formas de pensar ecologia e conservação na Amazônia
Primeiro encontro do projeto Ecologia dos Espíritos reuniu experiências etnográficas sobre relações com espíritos, encantados, donos, territórios e outras formas de cuidado com a sociobiodiversidade

Espíritos que habitam lugares e participam de rituais, donos que cuidam dos peixes e dos lagos, uma Avó da Argila com quem é preciso estabelecer relações de cuidado e reciprocidade, encantados que compõem territórios quilombolas. Pesquisas sobre essas presenças, assim como sobre pesca, fogo, plantas e regeneração, foram apresentadas no I Seminário Ecologia dos Espíritos, realizado de 23 a 25 de setembro, em Manaus.
O encontro reuniu pesquisadores do projeto “Ecologia dos Espíritos: conhecimentos tradicionais e conservação da sociobiodiversidade na Amazônia”, da Iniciativa Amazônia +10, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS/Ufam). As pesquisas apresentadas foram realizadas em territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos e têm em comum a atenção às maneiras como diferentes povos e comunidades conhecem, manejam e cuidam dos lugares onde vivem.
Nas apresentações, conservar a floresta não esteve restrito ao manejo de espécies ou à proteção dos chamados recursos naturais. Em diferentes territórios, apareceram seres que cuidam dos lugares, relações de negociação e reciprocidade, rituais, práticas de regeneração e conhecimentos transmitidos entre gerações.
“Quando colocamos essas experiências em relação, aparecem aproximações, mas também diferenças importantes entre os modos como povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais se relacionam com seres que muitas vezes chamamos de espíritos. Isso nos ajuda a pensar até onde conceitos como ecologia, conservação e o próprio espírito dão conta dessas relações e o que esses conhecimentos podem trazer para o debate sobre a sociobiodiversidade”, afirma Thiago Mota Cardoso, coordenador do projeto Ecologia dos Espíritos.

Parte das aulas foram realizadas no PPGAS, na Ufam. Foto: Izabel Santos
Entre os trabalhos apresentados esteve a Expedição Kaixana “O lago tem mãe: cóiu e a ecologia dos espíritos entre os pescadores Kaixana”, conduzida por Darlem Teixeira Penaforth, com a participação do pesquisador local Eller Lucas Penaforth. Darlem retornou à comunidade onde sua família viveu por quase duas décadas para pesquisar as pescarias nos ambientes lacustres. Engenheiro de pesca e pesquisador indígena, ele se interessou não apenas pelas técnicas utilizadas pelos Kaixana, mas pela maneira como os pescadores se relacionam com as águas, os peixes, os lugares de pesca e seres como a mãe-do-lago.
“A pesca desenvolvida pelo povo Kaixana vai além do simples fato de colocar malhadeira e ‘despescar’ peixes ou ‘manejar’ lagos por meio de acordos pré-definidos. Considerar o respeito tanto pelo peixe quanto por seus Donos, que cuidam deles, é uma forma de preservar a sociobiodiversidade”, afirma Darlem.
A discussão levou a uma das perguntas que acompanharam o seminário: como dialogar com a ecologia sem traduzir os conhecimentos dos povos apenas pelas categorias das ciências acadêmicas? Entre os Kaixana, pescar envolve perceber os movimentos das águas, conhecer os lugares, interagir com os cardumes e respeitar os seres associados aos lagos. Uma frase que Darlem ouviu do avô, Onofre Penaforth - o Piranga - , resume esse aprendizado: “A natureza é uma força espiritual.”
No Quilombo Passagem, em Monte Alegre, no Pará, Gilberto Oliveira acompanha os Encantados e os lugares onde sua presença é reconhecida. Responsável pela expedição “Lugares da Encantaria: cosmopercepções dos caminhos dos encantados no Quilombo Passagem, no Pará”, ele pesquisa como essas presenças participam do cotidiano e das formas de cuidado, pertencimento e luta pelo território.
Para Gilberto, encontrar pesquisadores que lidam com questões semelhantes em outros lugares da Amazônia foi uma das experiências mais importantes do seminário. “Esses encontros me fazem muito bem porque vejo que não estou sozinho nessa caminhada, que às vezes é muito individual. Discutir assuntos que estão conectados e que estão circulando pela Amazônia me faz muito feliz e empolgado”, conta.

O professor e kumu João Paulo Barreto, do povo Tukano, recepcionou o seminário
no Centro de Medicina Indígena. Foto: Izabel Santos.
Em Mato Grosso, a antropóloga Nayara Marcelly Ferreira da Silva desenvolve a expedição “Quando a mata é morada: práticas de cuidado e lugares em Coletivos Quilombolas de Laranjal e Cambambi-MT”, com Cristina Benedita da Silva, pesquisadora local do Coletivo Laranjal, e Enoc Marques da Silva, do Coletivo Cambambi.
A pesquisa acompanha roças, terra preta, águas, plantas, animais, seres encantados e práticas de cuidado que participam da vida nesses territórios. Para Nayara, o seminário foi “uma oportunidade potente de colocar as ciências indígenas e quilombolas em movimento”. “Não é uma questão apenas de acreditar ou não, mas de compor junto e seguir o que os especialistas, os e as especialistas e conhecedores locais nos ensinam para além do ambiente acadêmico. São eles que mediam as forças que ativam e produzem a paisagem”, afirma a pesquisadora.
A convivência com as mulheres quilombolas também mudou a maneira como Nayara percebe sua própria presença no campo. “Aprendo que a paisagem não é um vazio, que tudo tem dono e que o descuido da minha parte não é uma falta teórica, mas algo que pode gerar enfermidades, pode gerar consequências reais para o corpo de quem é de dentro”, explica.
Ela saiu do encontro, conta, com mais provocações do que respostas. Não como uma falta de conclusão, mas como parte do próprio trabalho que ainda está sendo feito. “Não na intenção de encerrar o debate, nem com conclusões prontas, mas de continuar tensionando e provocando o pensamento, fermentando as ideias”.
As experiências apresentadas percorreram outras regiões da Amazônia. Entre os Apyãwa, João Lucas Santos Rego pesquisa os axyga nas festas e em diferentes lugares do território. Como sua primeira etapa de campo coincidiu com um período prolongado de luto e suspensão dos rituais, ele passou a acompanhar narrativas, conversas cotidianas e deslocamentos a lugares associados a esses seres.
Defumação realizada pelo padre Justino Tuyuka na abertura do seminário. Foto: Izabel Santos
Entre os Inỹ-Karajá, Eduardo Soares Nunes acompanha o Hetohokỹ, ou festa da Casa Grande. Durante o ritual, espíritos ocupam o pátio da aldeia enquanto os homens percorrem o território para buscar madeira, palha, cipó e outros materiais e participar de caçadas rituais. Esses deslocamentos mostram que a festa não se encerra no pátio, mas depende também dos lugares onde vivem os espíritos e dos fluxos entre eles.
No Alto Rio Negro, José Carlos Almeida Cruz apresentou conhecimentos Piratapuia sobre o uso do fogo e os cuidados com as florestas no território dos rios Vaupés e Papuri. Silvio Sanches abordou o Wiâ’karo, espaço Tukano de regeneração que envolve roças, cultivos, capoeiras, mata e interações com diferentes seres.
Também no Alto Rio Negro, Sileusa Natalina Menezes Monteiro falou sobre mulheres, argila, plantas e a Di’i Yekõ, a Avó da Argila, no fazer cerâmica em Taracuá. Retirar e trabalhar a argila envolve autorização, negociação, cuidado e reciprocidade com um ser que não pode ser entendido apenas como representação de um recurso natural.
Na Terra Indígena Rio Guaporé, em Rondônia, Nicole Soares-Pinto acompanhou os povos do Complexo do Marico na aldeia Bahia das Onças. A pesquisa retomou transformações observadas desde 2013, período marcado por grandes enchentes e, mais recentemente, pela seca severa e pelos incêndios de 2024. “O que eu pude perceber é que há uma linguagem do ritual que é a linguagem da regeneração. Melhor dizendo, a linguagem da regeneração das espécies e do reequilíbrio dos ciclos ecológicos é a linguagem do ritual”, afirma Nicole.
Segundo a antropóloga, a retomada de festas tradicionais e de práticas xamânicas ocorre em meio a mudanças percebidas também na presença das espécies. O desaparecimento de algumas, a chegada de outras e o aparecimento de espíritos até então desconhecidos fazem parte, segundo ela, de um mesmo processo de mudança dos ciclos ecológicos e de busca por reequilíbrio.
A programação reuniu ainda pesquisas sobre a cerâmica de mulheres Pupỹkary, a cestaria de mulheres Yanomami e os cuidados envolvidos na coleta de fibras na floresta, fermentações e xamanismo no noroeste amazônico, as promessas feitas ao santo João Guabiraba por beiradeiros do Rio Tapajós e conhecimentos Kambeba sobre território, mudanças climáticas e seres espirituais.
No último dia, parte das discussões seguiu em duas atividades de co-reflexão. Pela manhã, Thiago Cardoso e Rafael Devos conduziram “Arte de notar e Cartografia dos ‘espíritos’”. À tarde, a programação foi realizada no Centro de Medicina Indígena Baserikowi, com “A antropologia indígena diante dos ‘espíritos’”, que reuniu João Paulo Tukano, Justino Tuyuka e Carla Wisu Dessana.

O encerramento do seminário aconteceu no Centro de Medicina Indígena. Foto: Divulgação
Sobre o Ecologia dos Espíritos
O “Ecologia dos Espíritos: conhecimentos tradicionais e conservação da sociobiodiversidade na Amazônia” é um projeto da Iniciativa Amazônia +10 que reúne pesquisadores acadêmicos e pesquisadores dos territórios em expedições realizadas junto a povos indígenas, comunidades quilombolas e ribeirinhas. As pesquisas investigam as relações entre humanos, espíritos e outros seres e suas conexões com os modos de conhecer, manejar e conservar a sociobiodiversidade amazônica.
O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará (Fapespa) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Brasil Plural (INCT Brasil Plural).
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