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Doenças neurológicas: quais sinais não devem ser ignorados?

Escrito por ascom.ufam | Publicado: Sexta, 28 de Agosto de 2026, 16h57 | Última atualização em Sexta, 28 de Agosto de 2026, 16h57 | Acessos: 91

Com a repercussão da Creutzfeldt-Jakob, condição rara que acomete o influenciador Lito Sousa, neurologista do HUGV-Ufam explica sintomas de alerta e como cuidar da saúde do cérebro

 

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), condição neurológica rara e de rápida evolução, ganhou repercussão nos últimos dias após a divulgação do diagnóstico do piloto Lito Sousa. O caso despertou a curiosidade sobre uma condição pouco conhecida, mas também chama atenção para um tema mais amplo: os cuidados com a saúde neurológica e a importância de reconhecer sinais que podem indicar alterações no cérebro e no sistema nervoso.

Nesta entrevista, a neurologista Talísia Vianez, do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV-Ufam), vinculado à Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e HU Brasil, explica quais são as doenças neurológicas mais frequentes, os sintomas que merecem atenção e aqueles que exigem atendimento imediato, além de abordar diagnóstico, tratamento e hábitos que contribuem para a saúde cerebral.

HUGV – Quais são hoje as doenças neurológicas mais comuns e quais delas mais impactam a qualidade de vida da população?

Talísia Vianez – Entre as mais frequentes estão as cefaleias, especialmente a enxaqueca, além de epilepsia, acidente vascular cerebral (AVC), neuropatias e, com o envelhecimento da população, doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. Em relação ao impacto na qualidade de vida, o AVC continua tendo um peso muito importante por poder deixar sequelas motoras, cognitivas e de linguagem e, atualmente, aparecer também em pessoas mais jovens. As demências, por sua vez, afetam não somente o paciente, mas toda a estrutura familiar e de cuidados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta para uma tendência de aumento da prevalência das demências diante do envelhecimento da população.

HUGV – Quais sinais do corpo podem indicar um problema neurológico e costumam ser ignorados ou confundidos com situações do dia a dia?

T.V. – Alguns sintomas acabam sendo atribuídos ao cansaço, ao estresse ou simplesmente à idade. Podemos citar alterações persistentes da memória ou da linguagem, dificuldade para encontrar palavras, tremores, perda de força, dormências recorrentes, desequilíbrio, mudanças na marcha, quedas frequentes ou uma dor de cabeça que começou recentemente ou mudou muito de padrão. Também é importante observar mudanças de comportamento, personalidade ou capacidade de realizar tarefas que antes eram habituais. Um sintoma isolado nem sempre significa uma doença neurológica, mas, quando ele é persistente, progressivo ou começa a interferir nas atividades do dia a dia, merece avaliação.

HUGV – Quais sintomas neurológicos exigem atendimento imediato?

T.V. – Alguns sintomas devem ser tratados como emergência. O principal exemplo é o aparecimento súbito de fraqueza ou dormência em um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar ou compreender, perda súbita da visão ou desequilíbrio intenso, porque podem indicar um AVC. Nesses casos, o paciente deve ser levado ao hospital o mais rápido possível.

Também precisam de atendimento imediato uma dor de cabeça súbita e extremamente intensa, especialmente quando é diferente de qualquer dor anterior; uma primeira crise convulsiva ou uma convulsão prolongada; perda súbita de consciência; confusão mental de início agudo; ou fraqueza que progride rapidamente. Em neurologia, em algumas situações, tempo significa cérebro. No AVC, por exemplo, reconhecer os sintomas rapidamente pode permitir tratamentos capazes de restaurar o fluxo sanguíneo cerebral e reduzir o risco de sequelas.

HUGV – Como é feita a investigação de uma doença neurológica?

T.V. – A investigação começa na consulta com o neurologista clínico. Uma boa história clínica e um exame neurológico detalhado são fundamentais para a definição das hipóteses que devem ser investigadas. A partir daí, os exames são solicitados com base no raciocínio clínico e de acordo com cada situação. Podemos utilizar tomografia e ressonância magnética do cérebro ou da coluna, eletroencefalograma, eletroneuromiografia, exames de sangue, análise do líquor e testes neuropsicológicos. Em situações específicas, também podemos solicitar estudos genéticos, exames vasculares ou métodos de imagem funcional. O mais importante é procurar um neurologista para uma avaliação e, então, se necessário, ele solicitará o exame adequado para a hipótese clínica.

HUGV – Nas doenças neurológicas, qual é a importância do diagnóstico precoce? Ele pode mudar a evolução da doença ou as possibilidades de tratamento?

T.V. – Sim. Em muitas doenças neurológicas, o diagnóstico precoce pode modificar significativamente o resultado do tratamento. Isso é muito evidente no AVC, nas infecções do sistema nervoso e em algumas doenças inflamatórias ou autoimunes, mas também é importante em condições crônicas. Em muitas doenças crônicas da neurologia, inclusive as que não têm cura, identificar precocemente o problema permite organizar o tratamento, controlar sintomas e preservar autonomia e qualidade de vida pelo maior tempo possível, não só com os cuidados médicos, mas com toda a equipe multidisciplinar, que é fundamental.

HUGV – Doenças neurológicas têm cura?

T.V. – Depende muito da doença. Algumas condições neurológicas podem ser reversíveis ou curáveis, principalmente quando são causadas por deficiências nutricionais, alterações metabólicas, algumas infecções, doenças autoimunes ou determinados problemas estruturais que podem ser tratados.

Outras doenças são crônicas e não possuem cura atualmente, mas isso não significa ausência de tratamento. Em doenças como Parkinson ou Alzheimer, por exemplo, o objetivo pode ser controlar sintomas, preservar funções e autonomia, reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida. Por isso, também é tão importante o acompanhamento multidisciplinar.

 

HUGV – Até que ponto hábitos como atividade física, alimentação adequada, sono de qualidade e estímulo intelectual podem ajudar a proteger a saúde do cérebro?

T.V. – Eles têm uma importância muito grande. Hoje entendemos a saúde cerebral como algo que deve ser cuidado ao longo de toda a vida. Atividade física regular, controle adequado de hipertensão, diabetes e colesterol, alimentação equilibrada, evitar tabagismo e consumo excessivo de álcool, além de manter atividades sociais e intelectuais, ajudam a reduzir fatores de risco para diversas doenças neurológicas. Nenhum desses hábitos oferece uma garantia absoluta de que uma pessoa nunca desenvolverá Alzheimer, Parkinson ou terá um AVC. Existe influência de idade, genética e outros fatores que não conseguimos modificar. Mas cuidar dos fatores modificáveis aumenta a possibilidade de envelhecer com um cérebro mais saudável e funcional.

 

Sobre a HU Brasil

O HUGV-Ufam faz parte da Rede HU Brasil desde 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.

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