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Conheça a travessia de Ariska Anastásya na moda, na arte e na pesquisa acadêmica

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Dia Nacional da Visibilidade Trans, o 29 de janeiro marca a luta por direitos, cidadania e contra a transfobia desde 2004. Em Manaus, a Ballroom é a cena artística e cultural abordada na dissertação autoetnográfica defendida pela pesquisadora Ariska Anastásya no PPGAS/Ufam

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Nascida na segunda metade dos anos 1990, no bairro Nossa Senhora das Graças, Ariska Anastásya da Costa Lopes cresceu em Manaus, cidade onde fortalece dia após dia a sua identidade de travesti negra por meio da arte, da moda e da investigação acadêmica. A comunidade Ballroom manauara é um espaço cultural que há cinco anos oferece acolhimento e formação política por meio de cursos e eventos dentro da agenda da diversidade… E é também onde Ariska consolida sua trajetória como pesquisadora, artista e criadora de moda,  uma interface que ainda é exceção no Brasil nesta terceira década do século XXI.

“Na Ballroom eu pude confiar mais em mim enquanto artista e criadora de moda. Foi ali que encontrei espelhos e redes de afeto que me impulsionaram até a pós-graduação”, relembra. Ao transformar a própria trajetória em pesquisa sobre travestilidades, moda e resistência através de uma abordagem autoetnográfica, Ariska não apenas defendeu uma dissertação no dia 15 de dezembro de 2025. Ela costurou um tanto mais a relação ainda acanhada entre a pesquisa acadêmica e os movimentos sociais e artísticos protagonizados por pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ no Amazonas e na região Norte.

O Dia Nacional da Visibilidade Trans, 29 de janeiro, é uma efeméride criada para recordar a ocupação do Congresso Nacional na luta por direitos e contra a transfobia, ocorrida no ano de 2004. Embora a luta das pessoas trans e travestis se faça durante todo o ano, essa data integra um calendário de reforço da mobilização nacional, quando os holofotes se voltam às pautas que ainda carecem de políticas públicas e para a urgência em efetivar e fazer cumprir uma série de direitos.

Presença acadêmica

Mas essa trajetória começou um pouco antes, quando Ariska obteve o grau de bacharela em Relações Públicas também pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) em 2021. Ainda na graduação, ela conta que sempre esteve envolvida em atividades de ensino, pesquisa e extensão. Participou do PET Comunicação [Programa de Educação Tutorial], de projetos institucionais sobre educação patrimonial e marketing digital, além de ter realizado uma pesquisa a respeito de campanhas de HIV/Aids nas redes sociais.

No ano de 2023, ingressou no mestrado em Antropologia Social, Programa de Pós-Graduação da Ufam que é pioneiro na oferta de vagas afirmativas para pessoas trans, fator esse que foi decisivo para a candidatura. “Eu temia que houvesse alguma hostilidade, mas todos no Programa se mostraram dispostos e bem informados. Isso me encorajou demais ao longo do curso”, recorda a jovem.

Ao trazer a Ballroom para o centro do debate científico em nível de pós-graduação stricto sensu de uma universidade federal, a pesquisadora subverteu a lógica majoritariamente estabelecida para esses lugares, onde diversos grupos sociais [e as respectivas manifestações] têm sido historicamente relegados à qualificação de “objetos” pesquisados. Quanto à abordagem “autoetnográfica”,  funcionou como uma ferramenta para enfrentar séculos de exclusão e marginalização ao pôr em evidência a trajetória de uma travesti negra que protagoniza a narrativa sobre si e aquela a respeito do movimento que ela ajudou a consolidar no Amazonas, nos últimos anos.

Em síntese, Ariska é uma travesti negra que usa as armas disponíveis para transformar a própria vivência em ciência. Ela reúne moda, arte e política em um trabalho que traz para o debate a potência das travestilidades percebidas e experimentadas na Ballroom manauara.

“Divinas Bonekas”

Na dissertação, intitulada “Divinas Bonekas: travessia autoetnográfica de travestilidades a partir da moda na Ballroom manauara”, a jovem analisa a moda criada nos bailes como expressão estética, denúncia social e ainda como uma prática sustentável. Fazendo uso de resíduos sólidos (que a priori seriam descartados como lixo), Ariska propôs uma reflexão antropológica acerca das materialidades não convencionais e ainda sobre como os corpos travestis se tornam instrumentos pedagógicos e políticos.

Ela explica que a “travessia autoetnográfica” é uma forma de narrar as travestilidades em constante movimento, as quais existem sem categorias fixas. Já a “moda Ballroom manauara”, segundo a pesquisadora, pode ser compreendida como uma criação coletiva que é fortemente marcada pelas criações inovadoras e pela resistência cultural. O que emerge do trabalho de investigação empreendido por Ariska é arte, é moda, é ciência, mas é sobretudo ação política frente às estratégias de desmobilização e silenciamento.

A pesquisa foi elaborada sob a orientação da professora Márcia Regina Calderipe Farias Rufino e o trabalho está em fase de revisão pós-banca de defesa. Logo o texto final estará disponível no respositório de teses e dissertações da Ufam. "Como a pesquisa foi construída, eu também entrevistei algumas pessoas. Minhas interlocutoras foram três travestis: Andira Angeli (atriz, circense e agente cultural), Louise Costa (empreendedora de moda) e Randy Souza (atriz, stylist e agente cultural)", elenca a mestra em Antropologia Social. Ela ainda recebeu a co-orientação da também docente e pesquisadora vinculada ao PPGAS Deise Lucy Oliveira Montardo.

Impacto transformador

A dissertação ajuda a compor o acervo de saberes que travestis vêm construindo em todo o Brasil. De fato, espaços sequer considerados há pouco mais de uma década, tais como a academia e os eventos científicos, hoje se tornam uma realidade próxima e cada vez mais vivenciada pelas pessoas trans e travestis como lugares de exercício de direitos e de proposições, avançando para além das lutas iniciais pelo reconhecimento da existência. 

Para a pesquisadora, ocupar esses espaços formais de ensino é também uma forma de resistência: “Quanto mais travestis e pessoas trans ocupam esses espaços, mais fortes ficamos em coletivo para garantir a permanência e a combustão dessas estruturas, para que elas possam arder com os nossos conhecimentos e para que as estratégias opressoras virem cinzas e pó”.

Passado o momento da defesa, que se deu em 15 de dezembro de 2025, a jovem já faz planos para difundir os escritos da pesquisa na realidade onde ela nasceu. A ideia, segundo Ariska, é continuar fomentando a cena Ballroom e respirar um pouco fora da academia antes de partir para o doutorado. 

Inclusive, este mês de janeiro de 2026 foi repleto de ações voltadas à visibilidade trans a partir de variadas frentes, como a música, a moda e a performance artística. A agenda faz parte das comemorações do dia nacional da visibilidade trans e conta com atividades da comunidade Ballroom em diversos espaços da cidade de Manaus.

Na programação da “Ballroom Culture 4.0”, um projeto realizado pela KUMA Espaço de Criação e pela Casa Konda, e com apoio do Edital Cultura TRANS 08/2024 – PNAB da Secretaria de Estado da Cultura (SEC/AM), a ‘Serpentário Ball’ é o evento que encerra as atividades. Ele ocorre neste sábado, 31 de janeiro, e promete reunir música, ancestralidade e a diversidade artística da cena local. A ação será no Luso Sporting Club, localizado na Rua Monsenhor Coutinho, 745 - Centro, a partir das 17h. Saiba mais sobre a Ball nos perfis @casakonda e @kumayogacriacao.

Trans, Travestis e formas de Existir

Enquanto “trans” (ou transgênero) é um termo guarda-chuva que engloba todas as pessoas que divergem do gênero designado no nascimento, incluindo mulheres trans, homens trans e travestis. Travesti é uma identidade específica, historicamente latino-americana, focada na feminilidade e com forte carga política, que não se restringe à identidade binária de “mulher”. Essa distinção é apresentada pela Transcendemos, uma entidade que ajuda organizações a implementarem políticas e ações inclusivas e que valorizem a diversidade.

Especificamente em relação ao termo travesti, ele foi historicamente visto como pejorativo e relacionado à ideia de prostituição. Contudo, vem sendo ressignificado pela sociedade e, nos dias atuais, autodenominar-se travesti é também uma forma de afirmação política. “Essa identidade é historicamente latio-americana e negra. Além de uma afirmação política, a autodenominação como travesti também é uma luta pela memória e pelo enfrentamento de estereótipos de marginalidade, por exemplo, quando ocorreu a Operação Tarântula, ocorrida na São Paulo (SP) dos anos 1980, quando pessoas travestis foram alvos de perseguição do próprio aparelho estatal”, esclarece Ariska.

Ela também relembra a figura de Xica Manicongo, pessoa natural do Congo que foi traficada e escravizada no Brasil, tornando-se a primeira travesti cuja história é documentada no País, ainda no século XVI. “Nós somos sim uma identidade ancestral que se opõe às estratégias de higienização aplicadas quando se aplica o termo mulher trans, conduzindo ao binarismo, por exemplo”, argumenta a mestra em Antropologia Social pela Ufam.

Créditos das fotos: Alonso Júnior (@alonsojunioram), Casa Konda (@casakonda), Mario Hirotoshi (@mariohirotoshi), Mano Jabutt (@manauarou), Andréa Lydia (@anlyds), Ana Júlia (@httpanajulia) e Mboiúna (@_criolla)

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