Valorização dos bioprodutos amazônicos é o caminho para o desenvolvimento regional

Pesquisar sobre os diversos potenciais de um mesmo bioproduto em diferentes localidades, avaliar e comparar as tecnologias utilizadas para o manejo são estratégias apontadas para o incremento do valor de mercado desses produtos

 

Autores e pesquisadores de bioprodutos amazônicosAutores e pesquisadores de bioprodutos amazônicosPromover uma bioindústria sustentável e reduzir a pressão exploratória sobre os produtos da Amazônia estão entre as alternativas mais promissoras para o desenvolvimento da região. Um artigo sobre o tema foi capa da edição de janeiro da revista Ciência Hoje, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

O trabalho destaca a necessidade de valorização de produtos regionais, como fibras, guaraná, açaí e óleos essenciais, por qualidades únicas obtidas em função do local de origem. Esse fator pode gerar diferencial de mercado. O artigo foi produzido em colaboração pelo professor do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas (ICE), Valdir Veiga Júnior; pelo professor da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA), Carlos Victor Lamarão; e pela doutoranda do Programa de Pós-Graduação Rede Bionorte, Roseane Moraes.

Pesquisar sobre os diversos potenciais de um mesmo bioproduto em diferentes localidades, avaliar e comparar as tecnologias utilizadas para o manejo com outras ao redor do mundo são estratégias apontadas pelos pesquisadores para o incremento do valor de mercado desses produtos, inclusive em nível de exportação. “Queremos alcançar a Denominação de Origem Controlada (DOC) para o que se produz aqui e esse artigo numa revista de divulgação científica leva o tema a muitos leitores”, destaca o professor Valdir Veiga sobre a relevância da publicação.

“Para isso, há um longo caminho, que inclui uma efetiva política de Estado para a região Norte nesse quesito. Nosso potencial já é conhecido; vamos mostrar, agora, como ele pode ser aproveitado”, reitera Veiga. Essa já é uma realidade para alguns dos nossos produtos. Em Maués, por exemplo, existe certificação para o guaraná e para o pau-rosa, que origina um óleo essencial. No Pará, o açaí também possui certificado.

Fibras e resina

A investigação que dará origem à tese da doutoranda Roseane Moraes, do PPG Rede Bionorte, trata de comparar a produção de juta e malva no interior do Amazonas com aquela realizada em países como a Índia e o Paquistão. “Atualmente, são 10 mil famílias que se dedicam à produção dessas duas fibras, especialmente nas cidades de Paritins e Barreirinha. Até a década de 1980, eram cerca de 250 mil”, aponta ela. Essa redução se deve, segundo a pesquisadora, à baixa competitividade marcada pela concorrência com modos produtivos mais eficazes realizados por indianos e paquistaneses, com uso de tanques e maquinário adequado por eles.

Virlane Reis pesquisa as propriedades de resíduos do açaíVirlane Reis pesquisa as propriedades de resíduos do açaíO processo rudimentar de extração e beneficiamento das fibras, no qual o caboclo passa até 12 horas na água da várzea, é impróprio e ineficaz para atender o mercado nacional. “Por lei, as indústrias automobilísticas precisam usar fibras na composição da lataria dos carros. O Brasil importa um material que poderia ser produzido aqui, desde que tivesse investimento em tecnologias apropriadas para a produção de qualidade e em maior volume”, aponta Roseane.

A resina de breu, popularmente conhecida como “breu branco”, também não recebe a importância que deveria no mercado local. Curiosa por fazer parte da “família” do incenso e da mirra, citados na Bíblia, tem aplicação especialmente na indústria de cosméticos. “Perdemos oportunidades de desenvolvimento porque ainda temos um processamento artesanal em baixa escala, apesar da demanda”, lamenta a pesquisadora.

Açaís e guaranás

Docente da Faculdade de Ciências Agrárias, o professor Carlos Victor Lamarão dedicou a tese e outros trabalhos ao tema “Açaí”. Existem dois tipos do fruto, um chamado ‘Euterpe Precatoria’, original do Amazonas; e outro cujo nome é ‘Euterpe Oleacea’, do Pará. Mesmo o açaí produzido aqui tem propriedades e gostos variados, como o açaí de Codajás ou o de Tefé. “Nosso objetivo é comprovar em quê as características são quimicamente distintas. A tentativa de padronização diminui o valor do produto no mercado”, ressalta o Lamarão. Ele verificou que o Açaí do Pará já tem um selo para identificar a origem e utiliza a “química verde”, livre de contaminação no processo produtivo. Isso agrega valor ao produto final e gera ganhos em cadeia.Guaraná é um dos mais apreciados da regiãoGuaraná é um dos mais apreciados da região

A respeito do guaraná, são levantadas as mesmas questões. O que é produzido em Maués difere daquele produzido em Coari. “As pesquisas têm a função de identificar quais são essas diferentes. O passo seguinte é apresentar isso como diferencial para as vendas. Por exemplo, uma bebida de uva só poderá levar o nome (DOC) de vinho do Porto se tiver, realmente, sido produzida naquele local. O mesmo acontece com o Champanhe. Nem todo espumante pode levar esse título, porque ele é exclusivo dos produzidos nessa região”, exemplifica Valdir Veiga.

Outros produtos

O Programa de Pós-Graduação em Química é lócus para o trabalho de Carlos Frederico. Ele faz um trabalho de “valorização química” de óleos essenciais. Como isso funciona? É só imaginar, por exemplo, que um óleo de andiroba pode ter a ação anti-inflamatória potencializada por meio de processos físico-químicos. Na pesquisa, são utilizados o pau-rosa e a copaíba.

Na mesma linha, trabalham as doutorandas Gláucia Costa e Simone Braga, do PPG em Inovação Farmacêutica; e a doutoranda Emily Soares, do PPG Biotecnologia, ambos da Ufam. Gláucia pesquisa sobre espongiários dos rios locais que podem ser úteis para o tratamento de doenças neurodegenerativas. Simone investiga sobre a possibilidade de formular bioprodutos a partir da “casca preciosa” ou caneleira. Já Emily realiza um trabalho de continuidade de outras pesquisas, identificando, a partir de compostos, mecanismos de ação antimicrobiana presentes em plantas da família Lauraceae, a mesma da caneleira.

Q-Bioma

“Há mais de dez anos, o Grupo de Pesquisa Química de Biomoléculas da Amazônia (Q-Bioma) estuda sobre produtos naturais da Amazônia, suas propriedades e seus diferenciais”, explica o professor Valdir Veiga, que tem diversos trabalhos publicados sobre a copaíba. De acordo com ele, há mais de duas décadas esses produtos são pesquisados em quatro regiões do País, com exceção do Sul, onde não há incidência da árvore. “Há grande variedade de ações biológicas do óleo conforme a localização da árvore. Isso é importante para diferenciar os princípios ativos de cada um deles”, enfatiza o pesquisador.

As linhas de pesquisa do grupo são: a) Padronização e aproveitamento biotecnológico de recursos naturais e subprodutos do extrativismo Amazônico; b) Química de esponjas de água-doce (Porifera); c) Química de Produtos Naturais das Famílias Leguminoseae, Lauraceae, Burseraceae e Piperaceae. Graduandos e pós-graduandos participam de diversos projetos que aliam bioprodutos amazônicos e biotecnologia em estudos multidisciplinares. As análises são realizadas, em grande parte, no laboratório de Produtos Naturais do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas da Ufam, sob a orientação do professor Valdir Veiga.

 

** Reportagem de Crisitane Souza