Empresa incubada na Ufam desenvolve bioinseticida para combater o Aedes aegypti

 

O produto é resultado da parceria entre pesquisadores da Ufam e Inpa, e é feito de extratos de fungos amazônicos que eliminam ovos e larvas em até 24h

 

 

Professora Antônia de Souza (Ufam), e demais pesquisadores, na coleta de fungosProfessora Antônia de Souza (Ufam), e demais pesquisadores, na coleta de fungosO Aedes aegypti, responsável por transmitir Dengue, Febre Chikungunya, Zica Vírus e outras doenças, tem preocupado o governo brasileiro pela velocidade como se propaga nas áreas urbanas. O Levantamento Rápido de Índices para o mosquito apontou 199 municípios em situação de risco para as doenças.

O portal acumula informações de quase 1.800 cidades. A classificação é feita com base em dados reunidos pelo Ministério da Saúde, e leva em conta o fato de que, em mais de 4% das casas visitadas nesses locais, foram encontradas larvas do mosquito. O ministério identificou o total de 665 municípios em alerta. Outros 928 foram considerados com índices satisfatórios, já que nessas localidades menos de 1% das residências apresentaram larvas do mosquito.

Diante do quadro de alerta, pesquisadores de todas as regiões têm realizado investigações com o intuito de minimizar o impacto na saúde pública e evitar um surto das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, em especial da Zika, que pode causar a microcefalia.

Na Universidade Federal do Amazonas, uma equipe liderada pela professora Antônia Queiroz Lima de Souza, da Faculdade de Ciências Agrárias (FCA), em parceria com uma empresa incubada no Centro de Desenvolvimento Empresarial e Tecnológico (Cdtech) da Ufam, e biólogos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), desenvolveu um bioinseticida capaz de eliminar ovos e larvas do mosquito Aedes aegypti.

 

Composição

Trata-se de um produto da Ecobios Ltda, empresa que desenvolve projetos de inovação com a finalidade de prestar serviços de Consultoria em Controle Ambiental e Análises Químicas Microbiológicas no Amazonas. A diretora é a bióloga Yamile Benaion Alencar, graduada e pós-graduada pela Ufam, e a empresa está desde 2012 no Centro de Desenvolvimento Empresarial e Tecnológico da Ufam (Cdtech), incubadora de empresas vinculada O bioinseticida de fungos pode ser comercializado na versão líquida e em pó. Foto: FapeamO bioinseticida de fungos pode ser comercializado na versão líquida e em pó. Foto: Fapeamà Faculdade de Estudos Sociais (FES) e dedicado a promover o empreendedorismo dentro e fora da comunidade universitária.

O produto é uma solução micoinseticida, ou seja, tem em sua composição extratos de fungos presentes no interior de plantas coletadas em ecossistemas da região amazônica, e no intestino de simulídeos (Simuliidae), pequenas moscas negras de países tropicais. Para os ovos e larvas do mosquito Aedes aegypti, esses fungos são parasitas mortais.

O bioinseticida poderá ser usado por meio da borrifação manual ou pela aplicação do pó diretamente na água de recipientes onde haja proliferação do Aedes aegypti. “Isso vai depender de como ele será produzido pelas empresas interessadas na fabricação em escala comercial. Esperamos que a distribuição em farmácias e supermercados seja realizada de forma ambientalmente correta”, explica Yamile Benaion.

Um dos grandes diferenciais é que a fórmula tem baixo impacto ambiental, pois utiliza compostos biodegradáveis. Ou seja, ele apresenta baixa toxicidade para o ser humano, ao mesmo tempo em que é altamente tóxico para o mosquito.

 

Descoberta e parcerias

Os primeiros extratos de fungos endofíticos contra Aedes (vetor da dengue) e Anophales  (vetor da malária) foram produzidos e avaliados em 2007, em uma pesquisa de mestrado que teve como colaboradores a professora Antônia Queiroz Lima de Souza, da Ufam, e o professor Wanderli Pedro Tadei, do Inpa. Em 2013, saiu o primeiro artigo na Revista Brasileira de Medicina Tropical, intitulado `Efeitos larvicidas de extratos de fungos Placa com fungos isoladosPlaca com fungos isoladosbasidiomicetos endofíticos sobre as larvas de Aedes e Anopheles´. (Leia o artigo).

Muito antes, em 2011, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), em conjunto com a Financiadora de Estudos e Projetos(FINEP), lançou um edital chamado PAPE-Integração, voltado ao desenvolvimento de produtos biotecnológicos por microempresas da região. As professoras Yamile Benaion (Ecobios) e Antônia de Souza (Ufam) submeteram, então, o projeto do bioinseticida, sendo depois aprovado com recursos que visaram à produção de fungos filamentosos para o controle do Aedes aegypti no Amazonas.

Ufam e Inpa também foram parceiros da empresa. “Nós da UFAM isolamos, conservamos e produzimos os extratos. Já o Inpa forneceu a infraestrutura para os ensaios inseticidas e nos deu todo o apoio jurídico para o pedido da patente”, explica Antônia de Souza.

 

Bioinseticida em pragas da agricultura

Os fungos, em geral, são capazes de atacar um grande número de insetos em praticamente todos os estágios de vida. Os fungos descobertos na pesquisa, além de controlar larvas dos mosquitos, são citados no meio científicoYamile Benaion, bióloga e empresária. Foto: FapeamYamile Benaion, bióloga e empresária. Foto: Fapeam como “potenciais biocontroladores de pragas da agricultura”. “Como exemplos de pragas e aplicação de bioinseticidas a base de fungos, posso citar os usados para controle de cigarrinhas da cana-de-açúcar, controle de lagartas, cupins, brocas da bananeira, gorgulho do arroz, dentre outros que causam problemas na agricultura no Brasil e no mundo”, diz Yamile Benaion.

 

Comercialização

Com a descoberta do bioinseticida, o principal foco da empresa, a partir de agora, é buscar investidores no Brasil ou exterior para a fabricação em massa do produto, e a rápida introdução no mercado através da venda direta. “O Inpa, titular da patente, juntamente com a Ecobios, Ufam e Fapeam estão à frente das negociações, buscando a transferência de tecnologia, objetivo maior da equipe do projeto e das instituições envolvidas”, ressalta Yamile. Ainda para a empresária, o preço do bioinseticida, com base em levantamentos, pode girar em torno de R$ 20 o litro ou R$15 o quilo.